Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas; pode-se dizer que ele é medido pelo número de recusas.
A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo. Da recusa estética (Mallarmé) à recusa ética (Tzvietáieva), se é que ambas não estão confundidas numa só, essa poesia, baluarte contra o fácil, o convencional e o impositivo, ficou à margem e precisa, de quando em vez, ser lembrada para que a sua grandeza essencial avulte sobre o aviltamento dos cosméticos culturais.
Nenhum melhor ícone para alegorizar a poesia da recusa do que esse longínquo predecessor, o estranho poeta-mártir Quirinus Kuhlmann, ressurgindo das luminosas cinzas do barroco alemão para comparecer a este concerto de vozes dissonantes com seu misticismo rebelionário e original, sob a evocação fantasmagórica do sacrifício nos braseiros da Rússia czarista.
Os poetas aqui reunidos, por diferentes que sejam entre si, têm em comum a bandeira da recusa. Evidente nos enigmas de Mallarmé, exposta dramaticamente na voz abafada dos russos da «geração que dissipou seus poetas», segundo a expressão de Jakobson, também está presente nas propostas radicais de Gertrude Stein e nas especulações mais ousadas do Yeats pós-Pound. E ainda nas abstrações imagístico-expressionistas de Wallace Stevens («How many poems he denied himself?») ou de Hart Crane, que se suicidaria em 1932, juntando-se ao rol dos grandes poetas russos, seus contemporâneos, Iessiênin e Maiakóvski, mortos pelas próprias mãos em 1925 e 1930, e à cuja trágica renúncia viria somar-se também a de Tzvietáieva, em 1941. O poema em que esta os homenageia — um diálogo imaginário pós-morte entre os seus coirmãos, literariamente antagônicos, mas unidos pela rebeldia poética e pelo mesmo trágico fim — emblematiza essa forma-limite de recusa.
| ISBN | 9789899286023 |
|---|---|
| Ano | 2026 |
| Número de páginas | 368 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Maldoror |
| Categorias |
Livros > Literatura > Poesia
Augusto de Campos
O poeta Augusto de Campos (São Paulo, 1931) é também o autor de Paul Valéry: A Serpente e o Pensar (Brasiliense, 1984), que contém a sua tradução de «Esboço de uma Serpente» e de fragmentos dos «Cadernos» deValéry; e co-autor — com Haroldo de Campos e Décio Pignatari — de Mallarmé, colectânea de traduções do grande poeta francês, editada pela Perspectiva (1974, 2.ª ed., 1980). Dentre os outros livros de tradução de poesia que publicou, destacam-se: Panaroma do Finnegans Wake (com Haroldo de Campos), Poemas de Maiakóvski (com Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman) e Verso Reverso Controverso (dos trovadores provençais aos simbolistas franceses), também da Editora Perspectiva; Poesia de Ezra Pound (com H. de Campos, D. Pignatari, M. Faustino e J. L. Grünewald), pela Editora Hucitec, e O Anticrítico, publicado em 1986 e já em 2.ª edição, sob a chancela da Companhia das Letras. VIVA VAIA, reeditado, ainda em 1986, pela Brasiliense, reúne o principal da sua produção poética de 1949 a 1979.
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