As distâncias são fruto de uma proposta de relação que, como tentei demonstrar, alimenta frustrações e imobiliza identidades. O que proponho implica reconhecer o outro no encontro e identificar o óbvio: eu não sou tu. A diferença deixa de sereterna e constante, passa a ser negociável, mutável e não dependente da semelhança. Acontece a cada momento, comportandosimultaneamente o que é conhecido, as histórias e as certezas. Nisto participa no jogo da existência, no mundo em movimento.
Não há, à partida, qualquer contradição entre o teatro e a literatura, não existe qualquer oposição, dissociação ou diferença, nem qualquer relação necessária. O reconhecimento da separação e da intransponibilidade, o facto de eu não ser tu ou deuma pessoa não ser outra permite um pensamento mais livre sobre o teatro e a literatura porque não estaremos condicionadospor um só tipo de relação, nem por um conhecimento exclusivo da disciplina; escaparemos, tanto quanto possível, a umaautoridade que precede e limita o objeto.
A inexistência de uma solução para o problema da relação entre o teatro e a literatura conforme ele é apresentado aolongo dos tempos por diferentes histórias do teatro, autores teatrais e dramáticos, bem como críticos ou académicos, deve-seà própria formulação do problema. Ao reformular o problema, deixamos de estar dependentes de uma descrição epistemológica de cariz dualista que segue em busca de uma solução para as dúvidas e colocamo-nos dentro de um quadro de aceitaçãoou de reconhecimento de uma ontologia própria e escandalosa, abrindoesta relação ao quotidiano. É por isso que não devemos negligenciar o papelda vontade nesta equação. As descrições antiliterárias, pós-dramáticasou a defesa do teatro literário insistem, porque é a sua vontade, em tornarcompreensíveis e iluminar o que observam.
Para complementar a afirmação de que uma coisa não é outra coisa énecessário então uma disponibilidade ou vontade própria do observador.
Depois de descrições várias de teatro e da sua relação com a literatura,concluirei com o modo como o reconhecimento da vontade e um outroconceito de conhecimento podem afetar as descrições de espetáculos eliteratura dramática, o olhar do leitor e do espectador e a relação destecom a obra que lê ou vê. Isto porque, mais do que abrir possibilidades esignificados para o teatro e literatura, me interessa reconhecer outros pares,de que espetáculo e espectador são exemplos, capturados por uma lógicaantinómica que limita significados.
[José Maria Vieira Mendes]| ISBN | 9789898833907 |
|---|---|
| Ano | 2022 |
| Número de páginas | 208 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Documenta |
| Categorias |
Livros > Artes > Teatro
José Maria Vieira Mendes
José Maria Vieira Mendes escreve maioritariamente peças de teatro, mas também publicou ensaios e ficção. É membro do Teatro Praga e da sua direcção artística desde 2008. As suas peças foram traduzidas em mais de uma dezena de línguas. Faz traduções literárias e trabalha ocasionalmente com artistas plásticos e em cinema. Publicou, mais recentemente, Arroios, Diário de um diário (ficção, 2015, Dois Dias edições), Uma Coisa (teatro, 2016, Livros Cotovia), Para Que Serve? (infância, 2020, Planeta Tangerina) e Uma Coisa não É Outra Coisa (ensaio, 2022, Sistema Solar). É professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. |


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